terça-feira, 8 de março de 2011

Amores Perros - Amor Cão


É um filme de Alejandro Gonzales Iñarritu que conta três histórias que se cruzam num acidente de viação, compondo um filme denso (quase demasiado denso) com personagens complexas, cujas acções são motivadas por sentimentos, dinheiro e desejo de vingança que hesitam e têm dúvidas e arrependimentos. Um filme em que encontramos, em todas as histórias, cães que, por vezes, chegam a ser tão ou mais importantes para o filme como as personagens humanas.

No primeiro quadro o filme temos a história de Octavio (interpretado por Gael Garcia Bernal) e Susana. Octávio é um jovem pobre que vive com a mãe, o irmão e a cunhada - Susana - e o filho destes. Octávio apaixona-se pela cunhada, maltratada pelo marido, e envolve-se no mundo das lutas de cães para com o seu cão Cofi ganhar dinheiro para poder fugir com a cunhada. Após algum sucesso as coisas acabam por correr mal quando um rival baleia Cofi, sendo esfaqueado por Octavio, terminando a primeira parte deste quadro com uma fuga a alta velocidade que termina no acidente que liga as três histórias do filme.

No segundo quadro, encontramos um produtor de televisão (Daniel) bem sucedido que abandona a mulher e as filhas para ir viver com uma jovem modelo bem sucedida (Valerie), que no dia em que vão viver juntos sofr um grave acidente que afecta gravemente as suas pernas. É talvez o segmento mais negro do filme com o amor de Daniel e Valerie a ser seriamente testado pelo efeito da mutilação da bela modelo - que acaba por perder a perna - a que se soma a tensão criada pelo desaparecimento do cão de ambos (Richie) que ao correr atrás de uma bola desaparece num buraco do soalho, sem que durante bastante tempo se perceba se se perdeu, se assustou ou foi encurralado e devorado pelas ratazanas, criando uma situação simultaneamente mórbida e irónica, que serve de metáfora ao filme.

No terceiro quadro, temos um antigo professor universitário (El Chivo) que abandonou a mulher e a filha para se juntar à guerrilha e que, depois de alguns anos na prisão, vive na rua com os seus cães e ganha dinheiro como assassino contratado. El Chivo que quando vai assassinar um homem vê a sua acção interrompida pelo acidente e que vai salvar Cofi (o cão de Octavio). Treinado para lutar contra outros cães, apesar de aparentemente dócil, Cofi mata os outros cães e acaba por se tornar no companheiro inseparável de um El Chivo arrependido e que no final do filme deixa uma mensagem para a filha o julga morto. Naquele que é talvez o único momento de alguma esperança num filme inspirado, mas profundamente pessimista, que termina com El Chivo e Cofi afastando-se sozinhos num cenário negro e desolado. Um El Chivo que perdoou Cofi do mesmo modo que deseja ardentemente o perdão da filha.

Inside the Kingdom - Robert Lacey


Numa altura em que os acontecimentos no mundo árabe ocupam as atenções internacionais, este livro é uma boa maneira de ficar a conhecer mais acerca do país onde estão mais de um quinto das reservas conhecidas de petróleo e que é um dos principais aliados dos EUA.

Muito bem escrito o livro e assente numa pesquisa cuidada, o livro descreve os principais acontecimentos políticos no Reino Saudita no período entre 1979 e 2009, tendo como personagens principais os elementos da classe dirigente e a sua relação com os cléricos, o livro relata a ascensão do fundamentalismo como uma reacção de rejeição da modernidade por uma sociedade extremamente conservadora que encontra numa observância rígida dos dogmas religiosos uma forma de proteger os seus valores tradicionais dos efeitos das "inovações". E que foi alimentado pelo papel que a Arábia Saudita, aliada aos EUA e Paquistão, desempenhou no conflito sovieto-afegão onde de forma aberta apoiou os mujahadeen na sua jihad contra os infiéis comunistas e que serviu de inspiração e de campo de treino a uma geração de sauditas cujo elemento mais ilustre é Bin Laden (de quem Lacey diz que era um amante de futebol e um excelente avançado centro) e que vão desempenhar um papel fundamental no terrorismo saudita, na Al-Qaeda e, nomeadamente, nos atentados do 11 de Setembro. Sobre o que um estudante saudita refere no livro que: "(...) my explanation of 9/11 is down to defective human mechanisms - wackos. And every human society has wackos. But we have to accept that most of themn were Saudi wackos. Fifteen out of nineteen. We cannot shift the blame. If you subject a society to all those pressures - the rigid religion, the tribe, the law, the traditions, the family, the police and, above all, the oppressive political system in which you can't express yourself - you are going to end up with wackos. And if you then present them with the doctrine of takfeer, the idea that all their problems come from outside themselves, and that you should try to destroy people who do not share your own particular view of God, then you're going to end up with some folks who are very dangeous indeed."

O livro descreve ainda os altos e baixos das relações entre o Reino e os EUA neste período e a forma como foram afectadas pelo conflito israelo-palestiniano relativamente ao qual os sauditas consideram que os EUA tem uma posição demasiado favorável às posições do Estado de Israel, o que gerou fortes tensões entre a casa real saudita e a administração Bush e conduziu a uma aproximação do Reino à Rússia e China.
 
E guia-nos através de um regime autocrático, ainda que numa versão relativamente benevolente, onde não
há liberdade de expressão e de manifestação ("that's not the Saudi way"), onde os opositores podem ser detidos sem acusação e ser torturados. De um país onde a família e a "honra" tem uma importância fulcral e onde metade da população (as mulheres) são excluídas da vida pública e vivem numa situação de completa subalternização face aos homens. E de um país onde existe uma importante minoria xiita que corresponderá a 10-15% do total da população concentrada nas regiões petrolíferas da costa do Golfo Pérsico e que tem sido alvo de discriminação económica e religiosa.
 
Não obstante o livro dá-nos várias razões de esperança. Ao longo do livro surgem várias personagens que lutam por uma Arábia Saudita mais democrática e moderna onde os direitos humanos sejam respeitados e exista igualdade entre homens e mulheres. E como Robert Lacey nos recorda no prefácio: "The modern Saudi experience may seem remote, but it was not so long ago in the West - certainly in our parents' and grandparents' memory - that most people were devout and rather intolerant, scared and suspicious of other races and faiths; the 'weaker' sex did not vote; capital punishments was considered a necessity; books and plays were censored (our films still are); Father knew best, and 'nice' girls kept themselves pure until marriage".
 

segunda-feira, 7 de março de 2011

A situação na Líbia


Depois de alguns dias em que, algo surpreendentemente, as forças armadas líbias pareciam não ter a capacidade (vontade ?) de resistir ao avanço dos revoltosos apesar da sua evidente superioridade em material militar - não apenas em meios aéreos mas também em tanques e artilharia - a (re)conquista da cidade de Bin Jawad pelas forças fiéis a Khadafi e as ofensivas em curso contra os rebeldes - que francamente parecem muito pouco organizados em termos militares - em Ras Lanuf, Zawiya e Misrata parecem tornar uma guerra civil prolongada como um cenário cada vez mais provável, salvo se se vier a verificar uma intervenção externa que as noticias de que o regime líbio lançou vários ataques aéreos tornam num cenário mais provável.

domingo, 6 de março de 2011

Protesto da Geração à Rasca




Compreendo perfeitamente a insatisfação de muitos elementos de uma geração que tem sido a principal vítima de um crescimento económico medíocre da nossa economia na última década e a maior sacrificada pela crise económico-financeira que Portugal actualmente enfrenta. Mas o Manifesto do movimento o protesto é de uma pobreza confrangedora... se isto for representativo do que "a geração com o maior nível de formação na história do país" é capaz de apresentar, sinceramente não me parece que tenhamos razões para grande optimismo face ao nosso futuro.

Sinais dos tempos ?


De qualquer modo é mau demais para ser verdade... (ver aqui)

PS: Comparem com esta excelente versão de Portugal, Portugal do Jorge Palma (via Albergue Espanhol).

O papel da comunidade internacional na Líbia


Numa altura em que a guerra civil na Líbia parece estar a ganhar cada vez mais intensidade, parecendo existir um risco elevado de que este conflito venha a se prolongar por um período longo, uma das questões principais que se coloca é qual deve ser a reacção da comunidade internacional e nomeadamente se deverá ou não existir uma intervenção militar.

Depois de alguma indefinição inicial, nomeadamente da parte de alguns países europeus com laços mais próximos ao regime de Khadafi, parece hoje existir um consenso na comunidade internacional na condenação da actuação deste regime que se traduziu na aprovação da Resolução 1970 de 2011 do Conselho de Segurança que estabelece um conjunto de sanções contra o regime líbio, tornando claro o isolamento de um regime cujo único apoio internacional parece ser o da Venezuela.

Perante o agravamento da situação do terreno e uma cada vez mais dificil situação humanitária na Líbia coloca-se no entanto a questão de saber se, e em que medida, deve existir um envolvimento internacional no conflito interno líbio, discutindo-se, nomeadamente a possibilidade de criação de uma zona de exclusão aérea que impeça o regime líbio de utilizar o seu poder aéreo na repressão da revolta.

Relativamente a este ponto deve no entanto destacar-se que uma intervenção desse tipo exigiria, tal como sucedeu no Iraque e na Sérvia, um onjunto de operações militares destinados a neutralizar as capacidades de defesa anti-aérea do regime líbio por forma a reduzir os riscos para os pilotos e aviões que fariam cumprir a zona de exclusão aérea, não sendo por isso possível o estabelecimento dessa zona de exclusão aérea sem que previamente ou simultaneamente sejam atacados alvos no solo líbio. Ora, tais operações não deixariam de ser utilizados pelo regime líbio para "demonstrar" a origem externa da revolta e poderiam prejudicar os próprios interesses dos revoltosos, pelo que julgo que deverá ser utilizada apenas em último recurso. Devendo no entanto os países ocidentais a criação de uma zona de exclusão aérea será uma realidade no caso do regime líbio utilizar a sua força aérea na repressão da revolta ou se verificar uma degradação da situação humanitária que exija uma intervenção no terreno. E deixarem bem claro ao regime líbio que a única solução consistirá na queda do coronel Khadafi.

sexta-feira, 4 de março de 2011

A revolta árabe e o futuro do Médio Oriente


Numa altura em que, infelzimente, o cenário de guerra civil parece estar a confirmado, a grande questão que se coloca a prazo é a de qual será a configuração do Médio Oriente quando acalmar a onda de revoltas que continua a assolar aquela região do mundo.

Numa primeira análise, em termos geo-políticos, o grande beneficiário dos acontecimentos das últimas semandas tem sido o Irão para quem é positivo quer o enfranquecimento do Egipto e Jordânia, países "moderados" próximos dos EUA e com acordos de paz com Israel, e uma aproximação destes países às posições dos palestinianos do Hamas quer uma maior influência da maioria xiita no Barém, país no qual os EUA detêm importantes bases militares e que coloca pressão sobre uma Arábia Saudita onde existe uma considerável população xiita concentrada nas regiões produtoras de petróleo. Acrescente-se a crescente influência do Hezbollah no Governo do Líbano e dos xiitas no Governo iraquiano e temos um cenário em que tudo parece apontar para a emergência do Irão como grande potência regional (o que recorde-se era um dos sonhos dos xás) e um Médio Oriente dominado por um eixo Teerão-Damasco, que naturalmente suscita consideráveis preocupações não apenas a Israel mas, também, à Arábia Saudita.

Esta análise esquece, no entanto, um factor que pode vir a revelar-se decisivo. A legitimidade do regime do Irão encontra-se muito fragilizada desde as eleições de 2009 e enfrenta, ele próprio, problemas muito similares aos que determinaram a queda dos regimes tunisino e egípcio.