sábado, 13 de agosto de 2011

Ler os Outros: Sobre a violência no Reino Unido - José Manuel Fernandes e Paulo Varela Gomes

Muitas análises tem sido feitas sobre a violência da última semana no Reino Unido, mas realçava dois textos.

O primeiro de José Manuel Fernandes (publicado no Público de ontem) que nos recorda a fragilidade da "ordem social":

"(...) o contrato social que nos permite viver em comunidade radica no facto simples de a maioria das pessoas saber distinguri o que é correcto e o que é errado fazer. Vivemos em paz não porque há muitos polícias a vigiar-nos, mas porque desde pequenos somos ensinados a distinguir o bem do mal. Se não existir um sentido moral nas nossas regras de vida em comum não haverá ordem nas nossas cidades. Quando muito haverá repressão. (...)"

O segundo de Paulo Valrela Gomes que no Público de hoje escreve:

"Não compro nem por um segundo a teoria de que os motins em Inglaterra são causados pela actual crise financeira e económica do Ocidente. Motins deste género e com esta dimensão não constituem novidade nenhuma em Inglaterra e também já os vimos em França, nos EUA, em todas as épocas e situações, em todos os regimes: é a canalha ou escumalha (como preferirem). Roubam e incendeiam porque podem. Yes, they can.
Entrentanto há alguma relação entre os motins e a crise. (...) Em primeiro lugar, a canalha inglesa (...) pode ter sido estimulada pelas acções dos anarquistas na Grécia e noutros lugares e pelas dos estudantes na própria Inglatera. Bem entendido, estas acções não são do mesmo género e não têm as mesmas causas. São política, não são ladroagem. Os anarquistas, chamemos-lhes assim à falta de melhor termo, atacam a polícia, agências bancárias, organismos do Estado. (...) [Enquantto que no Reino Unido] quem sofreu os incêndios e os roubos não é rico e quem queimou e roubou não está contra os ricos, só quer trer mais umas sapatilhas ou um plasma. (...)
Em segundo lugar (...) A canalha prestou um grande serviço aos governos da crise. Quem eles verdadeiramente temem, os trabalhadores e a classe média, vão hesitar em sair ameaçadoramente à rua, porque não querem ser confundidos com a canalha.
Finbalmente, (...) Ninguém hoje confere voz e aponta um caminho aos trabalhadores e à classe média em derrocada. Os partidos de esquerda fazem pena: (...) balbuceiam umas patetices politicamente correctas (...) A esquerda de hoje não serve para nada e não tem nada a propor. A consequência deste facto é que estamos entregues aos anarquistas - que não podem ir muito longe - e aos actos da canalha (...)"

PS: Sobre o tema ver também estes três posts (aqui, aqui e aqui) de Priscila Rêgo no Douta Ignorância.

sábado, 6 de agosto de 2011

Moonlight Sonata - Beethoven

Ler os Outros: Pontos de Vista - Suzana Toscano

"(...) por esta altura, enchem-se os jornais de “notícias” com as declarações de rendimentos dos novos governantes, reproduzindo com alarde, até à canseira, o que cada um, nome por nome, tem nas contas, nas aplicações, propriedades, tudo num exercício de puro voyeurismo com que já nos vamos conformando. Mas, na verdade, não se trata de um inocente exercício de espreitadela pelas vidas alheias, o que não mereceria mais do que um gesto de impaciência pela futilidade. Trata-se, em bom rigor, do uso abusivo de uma informação que tem que ser prestada para um fim de interesse público de transparência, um fim de que tantos se reclamam em altos gritos mas do qual, afinal, não percebem absolutamente nada. Essa transparência, obtida à custa da renúncia à reserva da sua vida privada por parte dos que se dispõem a servir a causa pública, visa permitir que se confirme, ou não, que, no decurso dos mandatos, esses titulares não enriqueceram de forma desproporcionada ou inexplicável. Só isso, e nada mais, é que devia ser notícia, caso houvesse diferença digna de nota nesse contexto, tudo o mais é pura devassa que só distorce a boa intenção da lei. A devassa expõe, de uma forma leviana e gratuita, a vida privada dos que se dispõem a assumir cargos públicos e em nada contribui para a confiança dos cidadãos, uma vez que as notícias se esgotam no copy paste da declaração inicial, no anúncio aos sete ventos que fulano de tal, ministro, é rico ou é pobre, e que o outro ao lado é proprietário ou tem lá em casa um carro xpto, tornando a palavra transparência numa armadilha sem sentido. Nunca vi nenhum jornal fazer, no fim dos mandatos, o exercício contrário, que era demonstrar que a maior parte dos governantes não enriqueceram durante o exercício dos cargos, que é para isso que a lei existe, só assim tem sentido e só deste modo é que os que reclamam transparência a podem, honestamente, invocar, para obter informações que, de outro modo, não teriam o direito de exigir."

(Post publicado no Quarta República)

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Ler os Outros: O BPN e o complexo Julia Roberts - Camilo Lourenço

"Há pelo menos dois anos e meio que se sabia que a venda do BPN só seria possível se o Estado "pagasse" para o vender. Agora, concluída a operação, meio mundo age como se o BPN fosse "A Jóia da Corôa" da banca portuguesa. Ele é deputados do PCP, BE e PS, ele é os grupos derrotados na operação (...)

Agora os políticos: Maria de Belém diz que enquanto presidente da Comissão que investigou o BPN lhe "passou muita coisa estranha debaixo dos olhos" e criticou a falta de sanção dos "actos criminosos". Uma pergunta: Maria de Belém criticava as falhas do anterior Governo? É que o banco foi nacionalizado em Novembro de 2008 e até Março de 2011 Teixeira dos Santos nunca disse qual o custo para o contribuinte. E em vez de vender o BPN mais cedo, quando a conjuntura era mais favorável, empurrou com a barriga… até levar com o gravíssimo ultimatum da troika (que deu todo o poder negocial ao comprador). Maria de Belém deve estar com amnésia. O que é estranho em quem dirigiu a referida Comissão…"

 (escerto de crónica publicada no Jornal de Negócios)

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Ler os Outros: Have gun, will travel - José Vitor Malheiros

"(...) este trabalho que o SIED faz para algumas empresas "estratégicas" está muito mal explicado e é a porta aberta para todos os abuso e favorecimentos. Quem decide que empresas podem beneficiar dele? Em que casos se faz e com que fins e instrumentos? Eu posso inscrever-me se quiser ganhar um concurso no Brasil? Em Agola? E se quiser ganhar um concurso em Portugal? O CFSIRP (a sigla é impronunciável por razões de segurança) também podia espreitar para aqui."

(excerto de crónica publicada ontem no Público)

terça-feira, 2 de agosto de 2011

EUA divididos

Um dos factos mais salientes dos resultados da votação do acordo para o aumento do endividamento federal é o peso dos representantes dos dois partidos que votaram contra o acordo. Efectivamente o compromisso - obtido in extremis e que parece não agradar a ninguém - foi aprovado por 269 votos (174 Republicanos e 95 Democratas) contra 161 (66 Republicanos e 95 Democratas).

Ou seja, um terço dos Republicanos e metade dos Democratas votaram, por razões diferentes, contra um acordo em que se prevê uma redução de 2,1 milhões de milhões de dólares da despesa federal dos EUA mas em que apenas 917 mil milhões estão já identificados (em 2012 a redução será de apenas 21 mil milhões de dólares) enquanto que os restantes 1,2 milhões de milhões serão definidos por um comité.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A entrevista de Álvaro Santos Pereira à RTP

Apreciei a forma clara e directa como o Ministro da Economia explicou o aumento dos preços dos transportes públicos, recordando a situação financeira calamitosa das empresas públicas de transportes (anunciando que, em 2010, os encargos com juros foram de 590 milhões de euros e os prejuízos foram 940 milhões de euros) que resultou das políticas dos Governos ao longo dos últimos anos que foram - à custa do crédito barato - empurrando o problema para a futuro, como também apreciei a forma como defendeu a necessidade de reestruturação do sector para reduzir os custos. Fiquei, no entanto, com algumas dúvidas quanto às vantagens de "prometer" que vai tentar (?) que os aumentos dos transportes no próximo mês de Janeiro não sejam superiores à inflação.