quinta-feira, 31 de março de 2011

Escuridão


Na crónica intitulada "Escuridão" no Público de hoje, Pedro Lomba coloca a questão se saber como é que foi possível termos deixado o país chegar à situação crítica em que hoje nos encontramos, atribuindo a culpa ao controlo da informação pelo Governo. Muito sinceramente julgo que não foi esse o (principal) problema, pois não só a informação fundamental sobre a trajectória da nossa economia e a insustentabilidade dos desequilíbrios (fundamentalmente do desequilíbrio externo) e dos problemas das contas públicas estava inteira e facilmente acessível através do INE, do Banco de Portugal, da OCDE, do Eurostat, etc. como essa mesma insustentabilidade era referenciada assinalada pelos (poucos) que se dedicavam a analisá-la.

Não se ter feito nada não resultou de uma conspiração dos políticos, mas do facto de, contrariamente ao que muitos pensarão os políticos, em geral, serem (tal como a população de onde provêm) muito menos informados do que se habitualmente se pensa: um político tende a saber apenas o que precisa de saber, o que muitas vezes não é muito.

Claro que a "culpa" foi também dos economistas, e em especial daquelas instituições (bancos centrais e organizações internacionais) que não tiveram a capacidade suficiente para transmitir (pelo menos com suficiente convicção) a necessidade premente de mudança de rumo. Também não por especial preversidade ou receio, mas julgo que sobretudo por dois factores: i) o facto de se deixarem guiar por modelos teóricos em que se baseiam que assentam na noção de ajustamento ntaural (e gradual) para o equilíbrio e ii) a própria imprevisibilidade da economia, associada ao grau de complexidade dos fenómenos económicos, levava a que fosse impossível saber quando esse ajustamento iria ocorrer e até qual a conjugação de factores que desencadearia a "crise". Pelo que, mesmo os economistas  que "sabiam" que o ajustamento era inevitável não sabiam (nem poderiam saber) com um mínimo de segurança quando (e como) a "crise" iria ocorrer, parafraseando o que alguém disse: "Podemos passar a vida inteira à espera de coisas que sabemos que acontecerão inevitavelmente".

Neste contexto, a tendência natural é para a procrastinação, adiando a ação especialmente quando esta é penosa e impopular e vai afectar negativamente o resultado das eleições.

Ao ler o artigo não pude deixar de tentar colocar-me na posição de um cidadão comum e pensar que se hoje é absolutamente evidente a gravidade da situação, a maioria da população terá provavelmente muita dificuldade em perceber as causas complexas da actual crise e, fundamentalmente, escolher qual a melhor estratégia de saída. Ora, na "escuridão" (incerteza) os seres humanos tendem a ser dominados pelos seus preconceitos e medos, aumentando a imprevisibilidade e a probabilidade de tomar decisões erradas. Estamos pois num momento crítico em que é indispensável, para o nosso futuro colectivo, um debate claro e sereno sobre as razões da crise e a(s) forma(s) de a ultrapassar.

quarta-feira, 30 de março de 2011

As linhas de orientação para o Programa Eleitoral do PSD


Sinceramente gostei da divulgação pelo PSD das suas linhas de orientação para o Programa Eleitoral. Em primeiro lugar porque revela que percebeu que embora isso seja importante (e não deva ser descurado) para obter as condições para governar com estabilidade política terá de dar resposta ao repto do PS para que apresente as suas alternativas, em segundo lugar porque assentam num diagnóstico da situação do país que me parece fundamentalmente correcto e em terceiro lugar porque soube resistir à tentação de apontar medidas específicas antes apostando primeiro na definição de principios estratégicos.

terça-feira, 29 de março de 2011

As declarações do Prof. Avelino Jesus sobre o TGV

De acordo com esta notícia em que se dá conta de que o Prof Avelino Jesus referiu na Assembleia da República, citando os estudos já realizados, que "na linha Lisboa-Madrid o que se prevê para o primeiro ano é uma procura de 4,7 milhões de passageiros. E que em seis, sete anos atingiremos os 10 milhões" porém "dados muito recentes, depois da inauguração há dois meses do percurso Madrid-Valencia, e Valência tem uma população maior que Lisboa, verifica-se que nos primeiros dois meses a procura foi de 280 mil passageiros, o que em termos anuais rara pouco mais de 1,5 milhões de passageiros".

Igualmente interessante parece-me a resposta de Ana Paula Vitorino que terá dito que "pôr em causa todo o trabalho técnico parece-me excessivo" (!!!) e que "não é possível avaliar em seis meses o trabalho, por vezes, de 20 anos" (!!!).

O cenário pós-eleitoral


Não raro em política (como noutras áreas) o que hoje parece impossível amanhã pode ser realidade, mas Bagão Félix toca num ponto muito importante quando chama a atenção para a dificuldade de um entendimento pós-eleitoral entre o PSD e um PS liderado por José Sócrates... o que significa que no caso do PSD+CDS não conseguirem ter a maioria absoluta o risco de ficarmos numa situação de impasse político é muito elevado.

O que, diga-se, tenderá a prejudicar eleitoralmente o PS, na medida em conduza o eleitorado do centro a votar no PSD como forma de garantir a estabilidade política. O que significa que uma estratégia de vitimização e atribuição de culpas à oposição poderá não funcionar...  e que o PS teria talvez mais a ganhar em construir pontes para um possível diálogo com os partidos à direita.

segunda-feira, 28 de março de 2011

O argumentário do PSD


O discurso do reeleito (com mais de 93% dos votos) secretário-geral do PS não trouxe surpresas, mas permitiu confirmar aquelas que serão as linhas de força da futura campanha eleitoral do PS assente em três grandes linhas: i) atribuir à oposição (e em particular o PSD) todas as culpas pela crise política e as eleições antecipadas apenas por uma questão de sede de poder; ii) salientar a "irresponsabilidade" dessa atitude que coloca o país na iminência de ter de recorrer à ajuda externa que o Governo estava quase a evitar e iii) acusar o PSD de não estar preparado para o poder e de não ter alternativas e/ou de ter uma agenda neo-liberal "inconfessável".

As hipóteses de o PS repetir nas próximas legislativas a recuperação eleitoral que lhe permitiu alcançar a vitória em 2009 estão muito comprometidas pelo enorme desgaste da imagem do primeiro-ministro e do Governo, cuja credibilidade já conheceu melhores dias e que, como os aplausos durante o discurso revelaram encontra dificuldades em entusiasmar os mais indefectíveis.

Não obstante trata-se, indubitavelmente, de uma narrativa bem articulada que o PS irá executar com a competência político eleitoral que lhe deve ser reconhecida. E a verdade é que até agora o PSD não demonstrou ter um argumentário próprio à altura. Num contexto em que apesar da considerável vantagem que as sondagens dão ao PSD nas eleições existem ainda muitas incertezas (ver a excelente série de 5 posts publicados por Pedro Magalhães no passado dia 24 de Março - aqui, aqui, aqui, aqui e aqui) será importante que o PSD rapidamente acerte a sua estratégia e discurso eleitoral destinada não só a desmontar a acusação de ter provocado a crise colocando o país à mercê do FMI (o que não me parece dificil), mas também ser capaz de explicar quais as suas alternativas no curto e médio prazo para Portugal. De outro modo, como a experiência de 2009 e das últimas presidências revelam será muito dificil obter a almejada, e necessária, maioria absoluta.

domingo, 27 de março de 2011

Somewhere only we know - Keane



I walked across an empty land
I knew the pathway like the back of my hand
I felt the earth beneath my feet
Sat by the river and it made me complete

Oh! Simple thing where have you gone
I'm getting old and I need something to rely on
So tell me when you're gonna let me in
I'm getting tired and I need somewhere to begin
I came across a fallen tree
I felt the branches of it looking at me
Is this the place, we used to love
Is this the place that I've been dreaming of
Oh! Simple thing where have you gone
I'm getting old and I need something to rely on
So tell me when you're gonna let me in
I'm getting tired and I need somewhere to begin

So If you have a minute why don't we go
Talking about that somewhere only we know?
This could be the end of everything
So why don't we go
Somewhere only we know?
(Somewhere only we know)

Oh! Simple thing where have you gone
I'm getting old and I need something to rely on
So tell me when you gonna let me in
I'm getting tired and I need somewhere to begin
So If you have a minute why don't we go
Talking about that somewhere only we know?
This could be the end of everything
So why don't we go
So why don't we go

This could be the end of everything
So why don't we go
Somewhere only we know?
Somewhere only we know?
Somewhere only we know?

(video aqui)

Três cenários para a Líbia





Os primeiros dias da missão de intervenção internacional na Líbia foram um sucesso completo ao conseguirem impor sem oposição significativa uma zona de exclusão aérea e parar a ofensiva das forças de Kadhafi sobre Bengasi que se encontrava numa situação militar desesperada.

Apesar dos sucessos militares que permitiram aos rebeldes retomar a iniciativa e, graças ao apoio aéreo das potências ocidentais, recuperar o controlo de cidades estratégicas importantes (nomeadamente Ajdabiya e Brega), a situação militar parece estar ainda longe de um desfecho definitivo.

Com efeito, se Kadhafi estiver como é provável a poupar as suas tropas na defesa das cidades ocidentais líbias evitando o combate em campo aberto e optar por comabte urbano, permancem muitas dúvidas de que os rebeldes tenham capacidades militares suficientes para avançar sobre Tripoli, sem um apoio aéreo maciço que acarretaria inevitavelmente "danos colaterais" elevados que colocariam em causa o apoio político à operação, nomeadamente nos países arábes. Neste contexto, apenas temos três cenários possíveis: i) o afastamento de Kadhafi através de uma solução política negociada entre o regime e os rebeldes; ii) o desmoronamento do regime de Kadhafi ou iii) uma divisão da Líbia em duas zonas e a negociação de um cessar-fogo.

Ora, se apesar de alguns rumores de existência de contactos para uma saída negociada, não existem grandes indicações de que estejamos próximos de qualquer dos dois primeiros cenários, também o cenário de divisão da Líbia parece ser dificultado pelos combates em Misrata que ainda continua sobre controlo dos rebeldes e pela insustentabilidade económica da Líbia ocidental que, num cenário de divisão do país com embargo económico, poder-se-á rapidamente transformar num desastre humanitário.

A única solução parece pois ser continuar a apoiar os rebeldes, mantendo o isolamento do regime de Kadhafi, imobilizando e destruindo  as forças militares que apoiam o regime, forçando uma solução política. Por muito pouco apetecível que a situação actual possa parecer... ter abandonado os rebeldes às mãos do regime de Kadhafi teria sido certamente muito pior.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Sondagem Marktest para a TSF e o Diário Económico


O barómetro da Marktest para a TSF e o Diário Económico indica o PSD e o CDS com mais de metade dos votos (46,7% para o PSD e 6,3% para o CDS-PP) e apenas 24,5% para o PS, com o BE a atingir os 8,9% e a CDU 6,7%.

Relativamente à situação anterior os pontos a salientar são a queda do PS (4 pontos percentuais) o que expressa a penalização pelo anúncio das medidas do PEC IV ( de notar que as entrevistas foram realizadas entre os dias 18 e 23) que parece ter beneficiado sobretudo o Bloco de Esquerda (que ganha 3 pontos percentuais). No que se refer aos líderes partidários cresce o saldo negativo das opiniões relativas ao primeiro-ministro José Sócrates, mas será de referir que apesar dos resultados apontarem para um cenário em que o PSD poderá obter a maioria absoluta mesmo sozinho, Pedro Passos Coelho continua a ter um saldo de opiniões negativo.

quinta-feira, 24 de março de 2011

As pressões europeias



As pressões europeias que vieram do presidente da Comissão Europeia, da chanceler alemã e do presidente do BCE reclamando um consenso nacional em torno dos objectivos orçamentais para 2011, 2012 e 2013 eram esperadas e constituem um aviso muito importante, que não estou seguro que tenha sido bem compreendido.

Como bem revelam as declarações do presidente do Eurogrupo apontando valores (75 mil milhões) para o montante do pacote de ajuda a Portugal, para as instituições e os nossos parceiros europeus o pedido de auxílio é nesta altura considerado como uma certeza, faltando apenas decidir a data e as condições em que vai ocorrer, sendo bastante provável que, tal como a Fitch hoje referiu, Portugal seja forçado a recorrer a essa ajuda nos próximos 2 meses, ou seja antes mesmo de se realizarem eleições antecipadas que decidirão qual o novo Governo. Sinceramente, não sei quais serão as intenções do Presidente, mas se houver espaço de manobra política,  a melhor solução seria indubitavlemente um Governo de "transição" que  pudesse negociar os termos e condições desse auxílio.

PS1: Estive os dois últimos dias no estrangeiro o que tem o saudável efeito de vermos como somos vistos lá fora, e a verdade é que (apesar do comunicado em inglês) na televisão e imprensa estrangeira a mensagem do PSD não passou e o chumbo do PEC 4 e a consequente demissão do Governo são apresentados como uma recusa da  austeridade e vistos com preocupação e alguma incredulidade e o tom geral é bastante favorável ao primeiro-ministro José Sócrates.

PS2: Parecem-me perigosas afirmações como estas de Miguel Relvas fazendo previsões sobre a evolução da taxa de juro ou estas de Carlos Moedas sobre a evolução futura do rating da República, porque demonstram  algum nervosismo e podem, mesmo que não seja essa a intenção, ser entendidas como promessas que não me parece que o PSD esteja em condições de cumprir. Infelizmente é provável que as taxas de juro ainda subam mais e que o rating da República se continue a deteriorar. Já me parecem no essencial correctas as declarações de Passos Coelho nomeadamente quando diz que "espera que os líderes europeus entendam a necessidade de um governo forte e comprometido com as reformas"... esperemos que os portugueses também. Notei, no entanto, que a forma como apareceram referidas nos diferentes jornais as suas referências aos impostos e salários e pensões não eram idênticas, correndo o risco de criar um ruído que o pode prejudicar.

Entre um "compromisso" para dar preferência a aumentos nos impostos sobre o consumo, em vez de cortes nos rendimentos das pessoas e nas “pensões mais degradadas" e confirmou que, a haver necessidade de ajustamentos, será nos impostos sobre o consumo e não sobre o rendimento, comprometendo-se a não cortar salários nem pensões, há uma diferença demasiado grande.


PS3: O país dispensava um diferendo entre PSD e CDS sobre um hipotético aumento de impostos. Esta reacção bem como a reacção do PS, mostram que infelizmente um consenso de que falei será quase impossível, mas mostra também que o PSD já está a comportar-se como partido do Governo numa altura em que ainda faltam dois meses para as eleições e que o PS a agir como partido da oposição.

segunda-feira, 21 de março de 2011

O comunicado do PSD


No comunicado hoje divulgado pelo PSD com a sua posição sobre o documento apresentado pelo Governo em Bruxelas, o PSD reafirma o seu apoio aos objectivos para a trajectória do défice orçamental (de 4,6% em 2011, 3% em 2012 e 2% em 2013) e justifica a sua recusa em apoiar o pacote de medidas anunciado pelo Governo com base em três argumentos:
- o facto destas medidas reflectirem o falhanço contínuoo do Governo em implementar uma programa de reformas estruturais e consolidação orçamental coerente, credível e sustentável;
- a indisponibilidade do Governo para negociar as medidas e construir um consenso político e social necessário para a sua aceitação e implementação;
- o facto de as mesmas imporem sacrifícios aos segmentos mais vulneráveis da população.
Concluindo um documento com uma frase em que refere que o resultado final do processo iniciado com o anúncio destas medidas pode (could) ser favorável se conduzir a uma coligação alargada para a mudança que melhore a legitimidade política do programa de ajustamento a implementar.
Devo confessar que o meu principal problema é precisamente esse pode... e temer os riscos não só de que as eleições não conduzam à desejada "clarificação" como o receio de uma radicalização que nos afaste (ainda mais) do necessário consenso político e social, mas dado o ponto a que se chegou acho que pouco mais nos resta do que esperar pelo melhor.

Cuidado com os idos de Março



A escassa margem de manobra que ainda aparecia existir dissipou-se na troca de acusacções e contra-acusações entre os direigentes dos dois maiores partidos portugueses e com o anúncio de que o CDS irá mesmo exigir a votação do PEC no Parlamento. Sinceramente não vislumbro como, a não ser com algum truque regimental como o recurso à ausência do hemiclo de alguns deputados da oposição, ainda será possível evitar o chumbo do PEC e a consequente antecipação das eleições no Parlamento.

Luís Amado pôs o dedo na ferida quando referiu que "Estamos há demasiado tempo a jogar aos dados com o destino da economia portuguesa e dos portugueses". Não sei em quem estaria a pensar quando proferiu estas palavras mas elas adequam-se plenamente à atitude do Governo e do primeiro-ministro ao longo dos últimos meses de recusa obstinada em reconhecer a gravidade e as razões da situação económica e financeira que atravessamos e, em particular, à forma como conduziram e apresentaram o já famigerado PEC IV, que já deveriam saber que a liderança do PSD não estaria em condições de apoiar, e depois forçaram a discussão desse mesmo plano, criando o cenário para o respectivo chumbo e consequente antecipação das eleições. E continuam, ainda, a apresentar a ajuda externa como um cenário evitável atribuindo o eventual recurso ao FMI / FEEF à crise política.

Ora, importa dizer que não só Portugal já está, desde há vários meses, dependente dessa ajuda externa, que tem vindo a ser concretizada pelo BCE através aos nossos bancos e de intervenções fulcrais no mercado secundário da dívida pública portuguesa, como o recurso a esse auxílio parece inevitável, com ou sem crise política. E que o principal risco da crise política é que venha a complicar (ou no limite impossibilitar) a negociação dos termos em que esse auxílio se deverá processar, ao dificultar a criação de um quadro político favorável à criação de um consenso alargado que aprove e legitime as medidas a adoptar no quadro desse auxílio.

As Estações - Joseph Haydn - Centro Cultural de Belém



Uma obra perfeita para o fim de tarde de ontem em que se sentiu "o sopro agradável" da Primavera, com uma orquestração que se liga maravilhosamente com as vozes dos solistas e do coro, repleta de pequenos deliciosos detalhes.

E um libreto recheado de episódios deliciosos, numa orátória onde o sagrado e o profano (presente nas peças que nos falam da alegria e sobretudo no sublime dueto de Lucas e Hanne que termina com "Amar e ser amado / é o mais alto cume da alegria / a delícia e a felicidade de viver") não só convivem como se complementam. Onde a passagem das estações é um pretexto para uma sucessão de quadros melódicos - entre os quais sobressaem as cenas da tempestade de Verão e da caça no Outono e as duas canções que Haydn integrou no Outono - que nos contam a vida quotidiana e nos falam da relação do Homem com a natureza, com o tempo e com Deus.

Uma obra onde é evidente a marca da "ética protestante" na forma como glorifica o trabalho e o esforço: 

"De ti, esforço vem toda a salvação.
A casa que nos abriga,
a lã que nos cobre,
a comida que nos sustenta,
tudo é dávida tua.

Ó esforço, nobre esforço
De ti vem toda a salvação.
Infundes a virtude
e suavizas os hábitos rudes.
Defendes dos vícios
e purificas o coração humano.
Fortaleces a coragem e a inteligência
para o bem e para o dever."

Que surgem como via para a virtude e a salvação, única esperança do homem para alcançar a "eterna Primavera", vencendo a terrível tirania da passagem do tempo:

"Repara já, homem enganado,
repara na imagem da tua vida.
Passou a tua curta Primavera.
Esgotou-se a força do teu Verão.
Com a idade murchou o teu Outono.
Aproxima-se já o pálido Inverno,
indicando-te o sepulcro aberto.
Onde estão agora os grandes projectos;
as esperanças de felicidade,
a procura de um grande nome,
o peso das preocupações?
(...)"

domingo, 20 de março de 2011

Cotovia - Deszso Kosztolanyi


É um pequeno romance absorvente que se lê de um só trago.

A história que se passa em 1899 é muito simples: um casal idoso - os Vajkay - da pequena burguesia e a sua filha - Cotovia - solteirona, que vai passar uma semana de férias a casa do tio, deixando os pais que se habituaram a ter a filha por perto e depender dela um pouco perdidos numa pequena cidade (ficcionada ?) chamada Sarszeg que vão redescobrir, redescobrindo-se a sim próprios. Criando um pequeno microcosmos que Kosztolanyi, com um  estilo elegante, enganadoramente simples, e poético - que me maravilhou - com que conta uma pequena tragédia que, como todas as tragédias, é universal.

O livro começa com a partida de Cotovia  "boa rapariga, muito boa mesma", mas feia e que, por isso, aos 35 anos continua "solteirona", para seu desespero e tristeza dos pais, que percebe-se ao longo do livro encontrava o seu único conforto no amor dos pais e no facto de lhes ser útil. E uma das "cenas" mais conseguidas do livro é a da partida em que Cotovia na estação de comboio "tentou sorrir, mas não se atrevia a falar. Receava que a sua voz lhe estrangulasse", para logo após a partida desabar num vale de lágrimas incessante que o autor descreve de forma magistral. Lágrimas que depois de acabarmos o livro ficamos sem saber se são a dor da separação ou o receio de que os que ficam - os pais - se adaptem demasiado bem à sua ausência  porque como nos diz o autor, um pouco depois, "Quem parte é alguém que desaparece, se aniquila, já não existe. Vive exclusivamente como lembrança, que visita frequentemente a nossa imaginação. Sabemos que está algures, mas não o vemos, tal como os que morreram".

É a história da infelicidade de Cotovia apavorada pela solidão a que se sente condenada após a morte dos pais e da impotência dos pais perante a tragédia pessoal de Cotovia: "Não decidiam o que desejavam. Não encontravam nenhuma solução, mas, ao menos estavam cansados. O que era alguma coisa." Tragédia imerecida, que os tortura, e que nos afasta das histórias dos "livros edificantes  (...) que ensinavam verdades morais, demonstrando que os factos mais confusos e, em si mesmos, os mais incompreensíveis, têm uma relação entre eles, uma coerência, donde se pode extrair uma moralidade, como, por exemplo, «o trabalho merece recompensa», «o mais cedo ou tarde recebe justo castigo», o que nos embala na doce ilusão de que ninguém sofre sem ter merecido, e ninguém morre sem razão com um cancro no estômago".

O contrário deste romance onde ressalta a "injustiça" e a aleatoriedade de um sofrimento sem culpados nem responsáveis. E a forma crua como o autor descreve o vazio e a ausência de sentido da vida daquele micro-cosmos, daquela sociedade pequeno-burguesa naquela pequena cidade húngara, onde o chefe de estação que, embora tendo vergonha dos seus "amigos", não se podia afastar deles "porque o que o ligava a estes comppinchas, só unidos pelos laços poderosos das paixões, da mesquinhez e da crueldade, era o seu deserto de incultura, e apreciar as brincadeiras imbecis, as suas piadas indecentes", com o seu grupo dos Panteras onde se juntavam os homens de boas famílias "com o objectivo não dispeciendo de popularizar o consumo de álcool e cultivar a amizade viril" para os quais "Quem vomitava duas vezes divertia-se melhor do que quem vomitava só uma. Na véspera, alguns  tinham vomitado três vezes, donde se seguia «terem-se divertido brilhantemente»", sublinhando o ridículo provincianismo da sua vida "cultural" e social.

sábado, 19 de março de 2011

Me gustas cuando callas - Pablo Neruda



Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.

Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía;

Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
déjame que me calle con el silencio tuyo.

Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.

Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.

As declarações de António Costa


Foi com muita surpresa que em regresso a Lisboa ouvi na rádio as declarações de António Costa na "Quadratura do Círculo, de que "A comunicação do ministro das Finanças da passada sexta-feira ficará certamente para a história como a mais desastrada e desastrosa que alguma vez foi feita em Portugal, se não mesmo no hemisfério Norte, de todos os pontos de vista", referindo que a intervenção de Teixeira dos Santos "criou a ideia generalizada de um conjunto de factos que temos vindo a perceber que não são reais. Por exemplo, só domingo à noite, é que percebi que o famoso congelamento das pensões sociais não constava do conjunto das medidas anunciadas".

E de facto é uma crítica duríssima ao Ministro das Finanças vinda de alguém que é apontado como n.º 2 do PS e que não deixa de ter um significado político importante. Mas, o mais surpreendente foi quando vi que o primeiro-ministro tinha vindo confirmar as declarações de António Costa, e desautorizar o Ministro das Finanças, ao vir esclarecer que: "As nossas decisões para o PEC são de congelamento do indexante de apoios sociais e da suspensão também da regra que define a atualização automática das pensões, porque isso é fundamental para um programa de austeridade. Mas a verdade é que desses dois congelamentos resulta não o congelamento de pensões, mas resulta uma possibilidade de redução da consequência orçamental que permite uma atualização, ainda que limitada, das pensões mínimas. Isso é o que está escrito no nosso PEC" (meu sublinhado).

Noutro país do hemisfério Norte o resultado imediato seria o pedido de demissão do Ministro das Finanças... neste país cada vez mais surreal, em que, como disse o Pedro Guerreiro, ninguém se demite e tudo se admite, o Ministro das Finanças remeteu-se ao silêncio.

O essencial deste episódio é, no entanto, outro. Contrariamente ao que inicialmente pensei o "comentador" António Costa não foi contagiado pelo Pacheco Pereira no seu ataque ao Governo, nem passou a fazer parte da lista de criticos internos à liderança de José Sócrates. Estas declarações que tiveram o claro propósito de, como tem vindo a ser habilmente tentado pelos dirigentes e deputados do PS, assumir erros de forma ou de "comunicação" para dizerem que o conteúdo é inevitável ou não é assim tão mau, revelam que o PS já está claramente em modo de campanha eleitoral.

sexta-feira, 18 de março de 2011

A escassa margem de manobra


Após as sucessivas declarações de líderes, dirigentes e deputados do PS e do PSD a margem de manobra para encontrar uma soluçõa que evita o desencadear imediato de uma crise política que conduza a eleições antecipadas é cada vez menor.

Curiosamente, ou talvez não, a sensação que fica é que ambos os partidos preferem eleições antecipadas, mas receiam tomar as medidas que a provoquem essa mesma crise. Nem o PS nem o PSD parecem dispostos a arriscar a pedir a votação de uma resolução sobre o PEC que, no cenário actual, conduziria quase inevitavelmente à demissão do Governo e a eleições antecipadas.

Pessoalmente, penso que é virtualmente impossível que Portugal evite um pedido de ajuda externa que muito provavelmente deverá ocorrer nos meses de Abril ou, o mais tardar até Junho, o qual desejavelmente deveria ser negociado com base num consenso entre PS e PSD que me parece cada vez mais díficil de obter. E se o principal culpado desta situação será José Sócrates, a forma como o PSD tem vindo a gerir a situação política também não tem contribuído para a necessária serenidade para enfrentar a situação.

Está criada uma situação em que cada um dos principais partidos vai tentar culpar o outro pelo quase inevitável pedido de auxílio financeiro externo, criando um muito pouco saudável ambiente em que provavelmente em vez de discutir uma estratégia para a saída da crise e para o futuro do país vamos ficar ocupados a decidir qual dos dois partidos foi o mais culpado pela dificil situação em que nos encontramos. É pena... e os portugueses mereciam melhor... ou, se calhar e pensando melhor, merecemos os políticos que escolhemos !

A intervenção externa na Líbia


Depois de vários dias de indecisão o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou ontem uma Resolução em que decidiu a criação de uma zona de exclusão aérea e autoriza os Estados-Membros a tomar todas as medidas necessárias para proteger as populações civis líbias, fazendo uma referência expressa à cidade de Benghazi, excluindo no entanto uma ocupação militar.

Estas medidas visam impedindo o iminente esmagamento militar das forças revolucionárias pelas forças leais a Kadhafi, criando, pelo menos, as condições para um cessar-fogo que permita uma negociação, e evitando a criação na Líbia de um cenário semelhante ao que se verificou no Iraque após a 1ª guerra do Golfo em que (no que muitos consideram um erro histórico) os EUA "abandonaram" as revoltas curda do Norte do Iraque e xiita do Sul do Iraque à sua sorte determinando o respectivo esmagamento pelas forças do regime de Saddam Hussein.

Trata-se sem dúvida de uma decisão que comporta riscos elevados, o mais imediato dos quais resulta do facto de EUA, França e Reino Unido estarem a colocar em jogo a sua reputação que sairá obviamente muito danificada no caso de as forças de Kadhafi conseguirem apesar da decisão de ontem vencer militarmente os rebeldes. Mas perante a pressão internacional, sobretudo da Liga Árabe e da França, e os recentes acontecimentos no mundo árabe, os riscos da inacção seriam ainda muito maiores.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Retrato de um país onde tudo se admite e ninguém se demite


Não perder esta crónica de ontem do Pedro Santos Guerreiro onde se chama a atenção para o facto de que "em Portugal ninguém se demite, tudo se admite. Os portugueses não conseguem votar por falha grave do Cartão de Cidadão? Rolam cabeças subalternas. A mulher do ministro da Justiça (repito, da Justiça) é suspeita de favorecimento? Não há problema. Mas a expressão "degradação das instituições" vem-nos à cabeça - e é eufemismo."

E refere a propósito da abertura do ano judicial que "teremos um ministro cuja mulher é suspeita de favorecimento; um Presidente da República traído, e condicionado, pelo Governo; um procurador-geral da República impotente e sem dinheiro para investigar a gravíssima suspeita de um juiz alvo de escutas ilegais; um bastonário que acusa os juízes de violação de direitos humanos e que não consegue que a sua Ordem dos Advogados aprove um orçamento; e um presidente do Supremo que manda destruir escutas ao primeiro-ministro que nunca mais são destruídas.

Este é um retrato patético de poderes que não mandam e que em vez de se separarem, se opõem. Este é o retrato de um sistema de Justiça que faz da própria cerimónia que o celebra uma caricatura da sua lentidão: o ano judicial iniciou-se em Setembro, a sessão de abertura é em Março.

Estamos cansados das reformas na Justiça. Já se reformaram todos os códigos, os mapas judiciários e os nós das acções executivas - e o que sobra são suspeitas de leis à medida de quem legislou, políticas paralisadas e um milhão de processos a entupir tribunais. Fala-se de politização do sistema e de falta de meios, e não se o despolitiza nem se lhe dá meios."

Isto antes de uma sessão em que o Presidente da República apelou a (mais) uma "reforma profunda e urgente" de uma justiça... que parece irreformável num país onde aparentemente tudo se admite e ninguém é responsável.

Entretanto na Líbia e no Bahrein...



No meio do autêntico frenesim mediático dos últimos dias, dominado pela situação das centrais de Fukushima (que parece longe de estar resolvida) e pela tensão política interna, têm passado quase despercebidos os graves acontecimentos na Líbia onde os rebeldes se encontram no que parece uma situação militar cada vez mais desesperada e no Bahrein onde as forças de segurança estão a usar a violência para reprimir violentamente os protestos da maioria xiita depois da chegada de forças enviadas pela Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. Depois do que sucedeu na Tunísia e Egipto, estes acontecimentos constituem, em ambos os casos, um revés para o processo de democratização no mundo árabe que enfraquece a posição dos opositores moderados e pró-ocidente e arrisca-se a conduzir a uma radicalização de uma parte dos manifestantes.

quarta-feira, 16 de março de 2011

O dilema de Pedro Passos Coelho


Numa altura em que o PS e o Governo parecem claramente apostados em retomar a estratégia de dramatização da situação que já haviam ensaiado na sequência da apresentação do OE para 2012, é de realçar a aceleração do calendário político através da apresentação e votação no Parlamento da proposta (?) do PEC IV já no decorrer da próxima semana antes da próxima cimeira europeia à qual o primeiro-ministro declarou ontem que não iria caso do PEC ser “chumbado”, empurrando de forma a responsabilidade por uma “crise política” para Pedro Passos Coelho e o PSD este enfrenta um dilema.

Depois da forma firme, mas apesar de tudo cautelosa, como reagiu na madrugada de sábado ao anúncio das medidas, Pedro Passos Coelho encontra-se na difícil situação de ter de decidir se deixa passar esta oportunidade de fazer cair o Governo precipitando eleições, mas propiciando ao PS apostar numa campanha baseada na vitimização e na responsabilização do PSD pelo eventual pedido de auxílio financeiro externo. Ou, se resiste a esta armadilha política, aguardando o desenrolar das próximas semanas que serão decisivas na clarificação da necessidade (ou não) desse mesmo auxílio que parece (cada vez mais) inevitável, opção que terá evidentes dificuldades não só em justificar perante o país como em fazer aceitar internamente, prinicpalmente depois de ter alimentado a ideia de que iria reprovar este PEC IV.

Ou eu ou o FMI !


Como seria de esperar a entrevista à SIC Notícias não trouxe grandes novidades, tendo o primeiro-ministro José Sócrates utilizado esta oportunidade para reafirmar a sua narrativa dos acontecimentos dos últimos dias, procurando desfazer o que considerou ser um conjunto de "equívocos" sobre o anúncio de novas medidas de austeridade que  apresentou a como um "mero" conjunto de linhas orientadoras e de propostas que está disposto a discutir com a oposição (i.e., o PSD), procurando alijar quaisquer responsabilidades relativamente a uma eventual crise política que considerou que seria desastrosa para o país. José Sócrates repetiu a sua "narrativa" da génese da crise e a justificação das medidas, que apresentou como se fossem uma espécie de ritual propiciatório necessário para recuperar os favores dos Deuses ou, no caso, a confiança do BCE, da Comissão Europeia, dos nossos parceiros europeus e dos mercados. Sendo chocante a incapacidade para explicar porquê estas medidas ou o que espera obter a médio-longo prazo através deste conjunto de medidas, dando nota da total ausência de sentido estratégico das sucessivas medidas que vão sendo anunciadas.

Do ponto de vista político, o primeiro-ministro deixou uma mensagem clara de que um chumbo do programa de estabilidade e crescimento levará à demissão do Governo e a novas eleições nas quais José Sócrates tenciona se apresentar de novo como líder do PS e candidato a primeiro-ministro. Colocando sobre os ombros do PSD a responsabilidade de decidir se pretende precipitar já eleições e ser responsabilizado pelo (quase) certo recurso ao auxílio financeiro externo ou se, pelo contrário, opta por o deixar passar adiando a crise política.

Da entrevista resultou, igualmente, evidente que o Governo joga tudo na sua capacidade para evitar o pedido de auxílio financeiro externo cujas consequências Sócrates dramatizou. A forma quase "Ou eu ou o FMI" como colocou a questão confirma que o Governo apenas acederá a aceitar o auxílio financeiro externo numa situação absolutamente in extremis... e, por outro lado, que, mesmo tendo em conta a sua notável resiliência, lhe será virtualmente impossível sobreviver politicamente num tal cenário.

terça-feira, 15 de março de 2011

Ainda sobre a "geração parva"



Um dos aspectos mais curiosos da letra da "geração parva" é a referência ao carro que ainda falta pagar que em conjunto com o LCD, o computador portátil com acesso wireless à internet, a TV por cabo com assinatura da Sport TV, o Blackberry, as férias no estrangeiro, as saídas à noite para os restaurantes e discotecas, as roupas de marca, etc. são tidos como essenciais por muitos jovens da classe média, aos quais se dirige a canção dos Deolinda como revelam bem os versos:

«Sou da geração ‘vou queixar-me pra quê?’
Há alguém bem pior do que eu na TV.»

Uma classe média que se sente justificadamente ameaçada pela actual situação económica e financeira e, em particular, pelas medidas dos PEC I, II, III e IV... e isso só por si é um facto político e social que não deve ser menosprezado e cujas consequências políticas são neste momento imprevisiveis.

A situação na Líbia


Embora a informação sobre a evolução da guerra civil em curso em território líbio seja escassa e parcelar, todos os elementos indicam que as forças leias ao regime de Khadafi não só recuperaram a iniciativa militar como, aproveitando a sua vantagem material sobre as forças rebeldes mal armadas e notoriamente menos organizadas, têm vindo a recuperar várias cidades, havendo mesmo relatos de que poderão estar perto de lançar um ataque sobre Bengasi.

Tudo isto perante uma exasperante lentidão da comunidade internacional que, apesar do apelo da Liga Árabe, hesita na criação de uma zona de exclusão aérea e tem-se revelado excessivamente tímida no alargamento das sanções às exportações de petróleo, que tornaria claro a todos os apoiantes do regime líbio que mesmo que o regime líbio esmague militarmente os rebeldes não voltará a ter lugar na comunidade internacional.

Situação crítica na central nuclear de Fukushima


No Japão, a situação dos reactores da central nuclear de Fukushima parece cada vez mais preocupante sucedendo-se as informações de problemas e fugas radioactivas, estando mesmo a surgir notícias de que uma onda radioactiva de pequena intensidade poderá atingir Tóquio nas próximas horas. (Deixo aqui um link para uma explicação do que está a ocorrer com a qualidade da BBC).

segunda-feira, 14 de março de 2011

A declaração de José Sócrates



Num um discurso em que, mais uma vez, foi incapaz de reconhecer qualquer erro e revelou uma profunda incompreensão da crise económica e financeira que, num momento Kim-Il-Sung, designou por "crise das dívidas soberanas que afecta toda a Europa" e que nas suas palavras é "apenas" uma crise de confiança, confesso que a minha grande surpresa foi ouvir o primeiro-ministro dizer que Portugal “conseguiu uma vitória importante” na última cimeira da zona Euro ao obter esta declaração conjunta por parte da Comissão Europeia e Banco Central Europeu em que estas duas instituições europeias consideraram que, num cenário macroeconómico razoável, o défice do Estado em 2011 seria 0,75 pp (ou seja 1,3 mil milhões de euros) superior ao objectivo de 4,6%, pondo de forma absolutamente clara em causa a credibilidade das previsões do Governo e alertam para os riscos que impendem sobre o nosso sistema financeiro. O que, mesmo atendendo aos baixos padrões de respeito pela verdade dos factos a que o primeiro-ministro nos tem habituado, corresponde a uma mistificação dos factos que me deixa estupefacto.

Quanto ao resto ressalto:
- a admissão implicita de que  sem as medidas anunciadas teria sido forçado a pedir ajuda financeira externa;
- a forma como foi notoriamente incapaz de explicar porque razão não discutiu previamente com os partidos da oposição as medidas do PEC IV, erro (forçado pelas circunstâncias ?) que procurou corrigir através do anúncio da sua disponibilidade para discutir (com o PSD) medidas alternativas de redução da despesa e, ainda,
- as constantes referências à importância da estabilidade política que considerou como indispensável para evitar o recurso à ajuda externa, deixando claro, para quem ainda tivesse dúvidas, que o PS não deixará de (tentar) imputar a responsabilidade pela necessidade de recurso a essa ajuda a quem precipitar ou contribuir para uma eventual crise política.

E agora ?


O anúncio das novas medidas de austeridade na passada sexta-feira veio alterar de forma significativa o cenário político em Portugal.

A margem de Pedro Passos Coelho para apoiar mais um pacote de medidas que nem sequer foram previamente discutidas negociadas com o PSD, decorridos menos de 3 meses da entrada em vigor do OE para 2011, era obviamente nula. Ressalte-se, contudo, a forma cuidadosa como Pedro Passos Coelho se referiu ao tema na madrugada de sábado, indicando que, pelo menos no imediato, não tenciona apresentar uma moção de censura ao Governo, abrindo a porta à permanência do Governo pelo menos até à discussão do OE para 2012. Mantendo-se, por enquanto, fiel ao seu rumo estratégico de, demarcando-se das políticas do Governo, não apressar a sua queda, seja porque ainda não se sente preparado para assumir o fardo da governação, seja porque teme os custos políticos e eleitorais de fazer cair o Governo, seja ainda porque está convencido da inevitabilidade de recurso ao auxílio externo e receia que o ónus de tomar esse passo recaia sobre si.

Paulo Portas, sempre perspicaz, percebeu imedidatamente este risco e foi certeiro na sua afirmação de que "Se o Governo não levar este PEC a votação, ou o PSD não exigir que o Governo leve este PEC a votação, o país corre o risco de ficar com este Governo, este PEC e com um impasse até ao Orçamento do Estado", anunciando que o CDS-PP iria apresentar um projecto de resolução contra as medidas agora anunciadas, mas recusando responder à questão de saber se a essa votação se iria, ou não seguir, uma moção de censura que, no cenário actual, conduziria quase certamente à queda do executivo e a novas eleições.

Verificando-se, como parece inevitável, o "chumbo" das medidas do PEC IV no Parlamento, caberá ao primeiro-ministro decidir se apresenta ou não a demissão do Governo, invocando que apesar desse "chumbo" não ter natureza vinculativa não terá condições políticas para exercer o cargo e correndo o risco de surgir como factor de instabilidade e de ser ele próprio responsabilizado pela "crise política". Ou se, pelo contrário, opta por permanecer à frente de um Governo que muito dificilmente será capaz de chegar a 2012.

domingo, 13 de março de 2011

Ave Maria (Schubert)



A imagem, infelizmente, não é muito boa, mas a interpretação é belissima.

Tsunami no Japão


Num dia em que, infelizmente, parecem confirmados os piores cenários das consequências do tsunami que afectou o Japão e permanecem os receios relativamente em redor da situação dos reactores nucleares em Fukushima.

Deixo aqui um link sobre a formação e evolução de um tsunami que ajuda a perceber quecorrespondendo antes a gigantescas massas de água que se movem a elevada velocidade com uma enorme energia, e que, contrariamente ao que se possa pensar, têm uma natureza completamente distinta de uma onda "normal".

Social Network - Rede Social


É um filme sobre o criador do Facebook Mark Zuckerberg que se tornou bilionário aos 20 anos e que no filme é apresentado como um génio informático, mas inábil nas relações humanas e sociais, a quem a namorada (Erica) diz no final da primeira cena do filme: "You are probably going to be a very successful computer person. But you’re going to go through life thinking that girls don’t like you because you’re a nerd. And I want you to know, from the bottom of my heart, that that won’t be true. It’ll be because you’re an asshole". Noutra das frases marcantes que assinalam o inicio do filme em que Erica diz que ele está obcecado em pertencer a um "clube universitário" a que Mark responde que "there’s a difference between being obsessed and being motivated" a que Erica responde, sarcasticamente, "Yes, there is". E, mais do que o dinheiro, é essa obsessão pelo "sucesso" e o "reconhecimento social" que motivam Mark, que nunca vemos a divertir-se, e o levam a sacrificar amizades e contribui para que se veja envolvido em numerosos conflitos judiciais.

No filme Mark é movido por uma necessidade de provar o seu valor, de demonstrar que era capaz de "triunfar", não só aos outros (e a Erica) mas, sobretudo, a si próprio e que o leva a dedicar todas as suas energias à empresa e a colocar nos seus cartões a expressão "I’m CEO... Bitch". Apesar do triunfo da sua empresa, Mark termina o filme dizendo, sem grande convicção, à advogada "I'm not a bad guy" e fica sozinho frente a um ecrã à espera da resposta de Erica a um pedido de amizade pelo Facebook.... procurando inspirar no espectador um sentimento de pobre bilionário, numa versão, muito pouco convincente, da ideia de que o dinheiro não traz felicidade... ou talvez apenas que a diferença mais importante entre nós e os ricos é que eles têm mais dinheiro.

Claro que boa parte do filme decorre em torno da evolução da empresa em que depois da intuição inicial é evidente o importante papel de Sean Parker (representado Justin Timberlake), fundador do Napster. Sean é a única personagem do filme com estatura intelectual à altura de Mark, que o apresenta a financiadores e num estilo de vida com mulheres, festas, bebida e drogas que, contudo, não seduz Mark nem o desvia do seu caminho, ficando no filme a ideia de que o próprio Mark terá denunciado Sean à polícia.

Se o filme conta a história do sucesso fulgurante do Facebook sobre o qual a dada altura Sean diz: "We lived on farms and then we lived in cities and now we’re gonna live on the internet" abdica de tentar explicar as razões porque tantas pessoas têm "conta" no Facebook ou as consequências sociais de um fenómeno que nos mostra apenas pelos olhos do seu criador.

sábado, 12 de março de 2011

Sobre as manifestações de hoje


A adesão às manifestações de hoje um pouco por todo o país excedeu as minhas expectativas e vem confirmar a existência de um elevado grau de desencantamento com a situação política e económica que, embora penalize particularmente os mais jovens, afecta todas as gerações.

As motivações para a adesão a este movimento - que, como tem referido com razão Pacheco Pereira, beneficiou de uma forte visibilidade proporcionada em termos muito favoráveis pela comunicação social - terão sido as mais variadas, não tendo detectado sinais de que possamos estar perante a génese de um qualquer movimento político significativo.

Um outro ponto a salientar é que o elemento mais importante comum a muitos dos participantes, para além do descontentamento, parece ser a descrença nos partidos políticos, o que constitui mais um sinal de uma crise de representatividade democrática que se tem vindo a fazer notar noutros fenómenos recentes como sejam a elevada taxa de votos brancos/nulos ou a votação expressiva do candidato José Manuel Coelho nas últimas eleições Presidenciais.

Um momento musical em final de tarde - Für Elise - Beethoven

Os dias do fim ?


Apesar de não aprovar a forma como o primeiro-ministro tem "conduzido" Portugal, em particular desde 2008, - a quem critico o excessivo voluntarismo e, sobretudo, a forma despudorada e arrogante como "lida" com os factos e as estatísticas - não consigo deixar de admirar a sua aparentemente inextinguível capacidade para resistir mesmo nos momentos mais dificeis. Pressionado pelos mercados, pelos outros líderes europeus, pela Comissão Europeia e pelo BCE, o Governo português parece ser o único a acreditar que será possível Portugal continuar (durante quanto tempo ?) a evitar o recurso ao FEEF... e regressar ao "ringue" mesmo quando já está encostado às cordas e quase knockout.

Num calendário extremamente adverso com uma votação de uma moção de censura no Parlamento na quinta-feira antes da qual não poderia apresentar novas medidas de austeridade e um Conselho Europeu no dia seguinte no qual tinha de comparecer com um pacote de medidas que "convencesse" os parceiros, o Governo conseguiu gerir do único modo possível (com a óbvia cumplicidade do BCE e da Comissão Europeia que mantiveram em segredo os resultados das suas estimativas sobre o défice até ontem).

Dito isto, o Governo tem claramente um grave problema de credibilidade já de si extremamente fragilizada depois do que aconteceu em 2010. Pois, não é aceitável que apenas 9 dias depois de o primeiro-ministro ter dito que "Portugal está em condições de apresentar este ano um défice abaixo dos 4,6% prometidos, tendo em conta os «resultados muito positivos» de execução orçamental do início deste ano" e que "Em Janeiro e Fevereiro a execução orçamental teve um resultado muito positivo que nos deixa muito confortáveis no objectivo de ter até ao final de 2011 um défice abaixo da media europeia", que é de 4,6%", sejam anunciadas medidas adicionais no montante de 0,8% do PIB (ou seja quase 1,4 mil milhões de euros) para cumprir essa mesma meta, apresentando aquele que é o quarto conjunto de medidas em menos de um ano sendo que todos os anteriores foram anunciados como suficientes para cumprir os objectivos fixados. E isto num contexto em que a conjuntura internacional tem sido relativamente benévola permitindo nomeadamente uma forte recuperação das exportações e o BCE tem dado um importantissimo apoio à economia portuguesa - que não tenho visto ser publicamente reconhecido pelo Governo - ao assegurar a liquidez do sistema bancário português e evitando um agravamento ainda maior das taxas de juro da dívida pública através da aquisição dessa dívida no mercado secundário.

E se é verdade que o facto de as medidas agora anunciadas para 2011 não carecerem de aprovação pelo Parlamento a partir de ontem o PS ficou ainda mais isolado politicamente, na medida em que a liderança do PSD se tinha comprometido com as medidas anteriores, mas não tem obviamente as minimas condições nem vontade para se comprometer com mais um pacote de medidas de austeridade por um Governo de um país condenado a uma profunda crise económica e social e que está na iminência de ter de atirar a toalha ao tapete e solicitar o auxílio financeiro internacional (que desde Novembro do ano passado me parece - cada vez mais - inevitável).... resta saber se o primeiro-ministro ainda terá algum coelho para tirar da cartola.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Tsunami atinge Japão


"E apareceram os abismos do mar,
Descobriram-se os fundamentos da terra,
Perante a ameaça do Senhor,
E o furacão impetuoso do Seu furor"

Cântico de David em Acção de Graças (II Samuel, 22.17)

Moção de censura chumbada

Sem qualquer surpresa a moção de censura foi chumbada com os votos contra do PS e a abstenção do PSD e PP num debate sem história marcado pela esquizofrenia do BE que anteontem criticou o discurso de Cavaco Silva, colocando-se objectivamente ao lado do Governo, e ontem "apontou as incongruências às bancadas da direita. «Ontem o PSD aplaudiu o Presidente da República com entusiasmo e hoje vota a favor de Sócrates, suspeito que com menos entusiasmo.»", num cenário em que nenhum partido está interessado em eleições é o PS.

E em que o principal objectivo do BE terá sido marcar uma posição de distanciamento face ao Governo/PS e afirmar-se como alternativa de esquerda principalmente junto do eleitorado jovem, urbano e de esquerda.

quinta-feira, 10 de março de 2011

A verdade pode ser incómoda e até cruel


O mais interessante nas reacções do PS ao discurso de tomada de posse é que até agora não vi ninguém dizer que o diagnóstico feito pelo Presidente da República não está correcto ou apresentar linhas de rumo alternativas substancialmente diferentes. O único esboço de crítica substantiva ao discurso teve por base o facto de não se ter referido à crise financeira internacional e ao facto que a mesma também afecta a Grécia e a Irlanda... como se isso fizesse alguma diferença e esquecendo que, pelo menos até há bem pouco tempo, apregoavam que Portugal não era a Grécia.

Infelizmente, os dirigentes do PS parecem ter uma enorme dificuldade em compreender a dimensão do problema de Portugal, o que revela como é dificil fazer alguém compreender uma coisa, quando o seu salário depende de não a compreender. Enquanto isso vamo-nos entretendo, e perdendo, em tensões, teorias conspirativas, guerrilhas, fait-divers e picardias que apenas revelam que, como Cavaco Silva certeiramente apontou, a maioria dos nossos políticos habita um país virtual e mediático do qual apenas sai, de vez em quando, para se lamentar do afastamento e desinteresse dos cidadãos face à política.

quarta-feira, 9 de março de 2011

O discurso de tomada de posse do Presidente da República


O discurso que Cavaco Silva hoje proferiu na sua tomada de posse foi um excelente discurso. Não me recordo mesmo de um discurso político recente com o qual me tenha identificado mais, no qual chamou a atenção para a importância de um diagnóstico correcto e um discurso de verdade sobre a situação nacional, que não se coibiu de, suportado em dados em concretos e objectivos, classificar como sendo de emergência económica, financeira e social para destacar a urgência de encontrar soluções de natureza conjuntural - que permitam mitigar as graves consequências sociais da crise - e estrutural - que permitam reduzir o défice externo e aumentar a produtividade da economia. Um discurso no qual chamou a atenção para "o risco de prosseguir políticas públicas baeadas no instinto ou em mero voluntarismo", para o erro que constitui "privilegiar grandes investimentos que não temos condições de financiar, que não contribuem para o crescimento da produtividade e que têm um efeito temporário e residual na criação de emprego". E no qual criticou a cultura "altamente nociva" de dependência e falta de transparência entre empresas e os poderes públicos e alertou para necessidade de alterações numa classe política em que muitos agentes "não conhecem o país real, só conhecem o país virtual e mediático".

Mas um discurso que foi simultaneamente de confiança na capacidade dos portugueses para, colectivamente, superarem a dificil situação com que o país se defronta, apontando caminhos para a solução dos problemas e apelando a uma mobilização da sociedade civil e, em particular, dos jovens.

Foi um discurso dirigido aos portugueses em que os alertou para a urgência da situação, para o caminho dificil que o país terá de trilhar, mas simultaneamente de esperança no futuro do país.

Infelizmente o futuro não se ganha (só) com discursos, e a reacção do PS, que pela voz do líder da sua bancada parlamentar veio considerar o discurso do Presidente da República como "impróprio e sectário", revela que não parecem existir as condições políticas para a desejada construção de um "programa estratégico de médio prazo, objecto de um alargado consenso político e social" e que, porventura por saber que a situação financeira é insustentável, o PS prefere preferir aumentar a tensão no relacionamento entre Belém e São Bento esperando, talvez, que, num cenário de eleições antecipadas, isso lhe permita apostar numa estratégia de vitimização da qual possa obter dividendos eleitorais.

terça-feira, 8 de março de 2011

Amores Perros - Amor Cão


É um filme de Alejandro Gonzales Iñarritu que conta três histórias que se cruzam num acidente de viação, compondo um filme denso (quase demasiado denso) com personagens complexas, cujas acções são motivadas por sentimentos, dinheiro e desejo de vingança que hesitam e têm dúvidas e arrependimentos. Um filme em que encontramos, em todas as histórias, cães que, por vezes, chegam a ser tão ou mais importantes para o filme como as personagens humanas.

No primeiro quadro o filme temos a história de Octavio (interpretado por Gael Garcia Bernal) e Susana. Octávio é um jovem pobre que vive com a mãe, o irmão e a cunhada - Susana - e o filho destes. Octávio apaixona-se pela cunhada, maltratada pelo marido, e envolve-se no mundo das lutas de cães para com o seu cão Cofi ganhar dinheiro para poder fugir com a cunhada. Após algum sucesso as coisas acabam por correr mal quando um rival baleia Cofi, sendo esfaqueado por Octavio, terminando a primeira parte deste quadro com uma fuga a alta velocidade que termina no acidente que liga as três histórias do filme.

No segundo quadro, encontramos um produtor de televisão (Daniel) bem sucedido que abandona a mulher e as filhas para ir viver com uma jovem modelo bem sucedida (Valerie), que no dia em que vão viver juntos sofr um grave acidente que afecta gravemente as suas pernas. É talvez o segmento mais negro do filme com o amor de Daniel e Valerie a ser seriamente testado pelo efeito da mutilação da bela modelo - que acaba por perder a perna - a que se soma a tensão criada pelo desaparecimento do cão de ambos (Richie) que ao correr atrás de uma bola desaparece num buraco do soalho, sem que durante bastante tempo se perceba se se perdeu, se assustou ou foi encurralado e devorado pelas ratazanas, criando uma situação simultaneamente mórbida e irónica, que serve de metáfora ao filme.

No terceiro quadro, temos um antigo professor universitário (El Chivo) que abandonou a mulher e a filha para se juntar à guerrilha e que, depois de alguns anos na prisão, vive na rua com os seus cães e ganha dinheiro como assassino contratado. El Chivo que quando vai assassinar um homem vê a sua acção interrompida pelo acidente e que vai salvar Cofi (o cão de Octavio). Treinado para lutar contra outros cães, apesar de aparentemente dócil, Cofi mata os outros cães e acaba por se tornar no companheiro inseparável de um El Chivo arrependido e que no final do filme deixa uma mensagem para a filha o julga morto. Naquele que é talvez o único momento de alguma esperança num filme inspirado, mas profundamente pessimista, que termina com El Chivo e Cofi afastando-se sozinhos num cenário negro e desolado. Um El Chivo que perdoou Cofi do mesmo modo que deseja ardentemente o perdão da filha.

Inside the Kingdom - Robert Lacey


Numa altura em que os acontecimentos no mundo árabe ocupam as atenções internacionais, este livro é uma boa maneira de ficar a conhecer mais acerca do país onde estão mais de um quinto das reservas conhecidas de petróleo e que é um dos principais aliados dos EUA.

Muito bem escrito o livro e assente numa pesquisa cuidada, o livro descreve os principais acontecimentos políticos no Reino Saudita no período entre 1979 e 2009, tendo como personagens principais os elementos da classe dirigente e a sua relação com os cléricos, o livro relata a ascensão do fundamentalismo como uma reacção de rejeição da modernidade por uma sociedade extremamente conservadora que encontra numa observância rígida dos dogmas religiosos uma forma de proteger os seus valores tradicionais dos efeitos das "inovações". E que foi alimentado pelo papel que a Arábia Saudita, aliada aos EUA e Paquistão, desempenhou no conflito sovieto-afegão onde de forma aberta apoiou os mujahadeen na sua jihad contra os infiéis comunistas e que serviu de inspiração e de campo de treino a uma geração de sauditas cujo elemento mais ilustre é Bin Laden (de quem Lacey diz que era um amante de futebol e um excelente avançado centro) e que vão desempenhar um papel fundamental no terrorismo saudita, na Al-Qaeda e, nomeadamente, nos atentados do 11 de Setembro. Sobre o que um estudante saudita refere no livro que: "(...) my explanation of 9/11 is down to defective human mechanisms - wackos. And every human society has wackos. But we have to accept that most of themn were Saudi wackos. Fifteen out of nineteen. We cannot shift the blame. If you subject a society to all those pressures - the rigid religion, the tribe, the law, the traditions, the family, the police and, above all, the oppressive political system in which you can't express yourself - you are going to end up with wackos. And if you then present them with the doctrine of takfeer, the idea that all their problems come from outside themselves, and that you should try to destroy people who do not share your own particular view of God, then you're going to end up with some folks who are very dangeous indeed."

O livro descreve ainda os altos e baixos das relações entre o Reino e os EUA neste período e a forma como foram afectadas pelo conflito israelo-palestiniano relativamente ao qual os sauditas consideram que os EUA tem uma posição demasiado favorável às posições do Estado de Israel, o que gerou fortes tensões entre a casa real saudita e a administração Bush e conduziu a uma aproximação do Reino à Rússia e China.
 
E guia-nos através de um regime autocrático, ainda que numa versão relativamente benevolente, onde não
há liberdade de expressão e de manifestação ("that's not the Saudi way"), onde os opositores podem ser detidos sem acusação e ser torturados. De um país onde a família e a "honra" tem uma importância fulcral e onde metade da população (as mulheres) são excluídas da vida pública e vivem numa situação de completa subalternização face aos homens. E de um país onde existe uma importante minoria xiita que corresponderá a 10-15% do total da população concentrada nas regiões petrolíferas da costa do Golfo Pérsico e que tem sido alvo de discriminação económica e religiosa.
 
Não obstante o livro dá-nos várias razões de esperança. Ao longo do livro surgem várias personagens que lutam por uma Arábia Saudita mais democrática e moderna onde os direitos humanos sejam respeitados e exista igualdade entre homens e mulheres. E como Robert Lacey nos recorda no prefácio: "The modern Saudi experience may seem remote, but it was not so long ago in the West - certainly in our parents' and grandparents' memory - that most people were devout and rather intolerant, scared and suspicious of other races and faiths; the 'weaker' sex did not vote; capital punishments was considered a necessity; books and plays were censored (our films still are); Father knew best, and 'nice' girls kept themselves pure until marriage".
 

segunda-feira, 7 de março de 2011

A situação na Líbia


Depois de alguns dias em que, algo surpreendentemente, as forças armadas líbias pareciam não ter a capacidade (vontade ?) de resistir ao avanço dos revoltosos apesar da sua evidente superioridade em material militar - não apenas em meios aéreos mas também em tanques e artilharia - a (re)conquista da cidade de Bin Jawad pelas forças fiéis a Khadafi e as ofensivas em curso contra os rebeldes - que francamente parecem muito pouco organizados em termos militares - em Ras Lanuf, Zawiya e Misrata parecem tornar uma guerra civil prolongada como um cenário cada vez mais provável, salvo se se vier a verificar uma intervenção externa que as noticias de que o regime líbio lançou vários ataques aéreos tornam num cenário mais provável.

domingo, 6 de março de 2011

Protesto da Geração à Rasca




Compreendo perfeitamente a insatisfação de muitos elementos de uma geração que tem sido a principal vítima de um crescimento económico medíocre da nossa economia na última década e a maior sacrificada pela crise económico-financeira que Portugal actualmente enfrenta. Mas o Manifesto do movimento o protesto é de uma pobreza confrangedora... se isto for representativo do que "a geração com o maior nível de formação na história do país" é capaz de apresentar, sinceramente não me parece que tenhamos razões para grande optimismo face ao nosso futuro.

Sinais dos tempos ?


De qualquer modo é mau demais para ser verdade... (ver aqui)

PS: Comparem com esta excelente versão de Portugal, Portugal do Jorge Palma (via Albergue Espanhol).

O papel da comunidade internacional na Líbia


Numa altura em que a guerra civil na Líbia parece estar a ganhar cada vez mais intensidade, parecendo existir um risco elevado de que este conflito venha a se prolongar por um período longo, uma das questões principais que se coloca é qual deve ser a reacção da comunidade internacional e nomeadamente se deverá ou não existir uma intervenção militar.

Depois de alguma indefinição inicial, nomeadamente da parte de alguns países europeus com laços mais próximos ao regime de Khadafi, parece hoje existir um consenso na comunidade internacional na condenação da actuação deste regime que se traduziu na aprovação da Resolução 1970 de 2011 do Conselho de Segurança que estabelece um conjunto de sanções contra o regime líbio, tornando claro o isolamento de um regime cujo único apoio internacional parece ser o da Venezuela.

Perante o agravamento da situação do terreno e uma cada vez mais dificil situação humanitária na Líbia coloca-se no entanto a questão de saber se, e em que medida, deve existir um envolvimento internacional no conflito interno líbio, discutindo-se, nomeadamente a possibilidade de criação de uma zona de exclusão aérea que impeça o regime líbio de utilizar o seu poder aéreo na repressão da revolta.

Relativamente a este ponto deve no entanto destacar-se que uma intervenção desse tipo exigiria, tal como sucedeu no Iraque e na Sérvia, um onjunto de operações militares destinados a neutralizar as capacidades de defesa anti-aérea do regime líbio por forma a reduzir os riscos para os pilotos e aviões que fariam cumprir a zona de exclusão aérea, não sendo por isso possível o estabelecimento dessa zona de exclusão aérea sem que previamente ou simultaneamente sejam atacados alvos no solo líbio. Ora, tais operações não deixariam de ser utilizados pelo regime líbio para "demonstrar" a origem externa da revolta e poderiam prejudicar os próprios interesses dos revoltosos, pelo que julgo que deverá ser utilizada apenas em último recurso. Devendo no entanto os países ocidentais a criação de uma zona de exclusão aérea será uma realidade no caso do regime líbio utilizar a sua força aérea na repressão da revolta ou se verificar uma degradação da situação humanitária que exija uma intervenção no terreno. E deixarem bem claro ao regime líbio que a única solução consistirá na queda do coronel Khadafi.

sexta-feira, 4 de março de 2011

A revolta árabe e o futuro do Médio Oriente


Numa altura em que, infelzimente, o cenário de guerra civil parece estar a confirmado, a grande questão que se coloca a prazo é a de qual será a configuração do Médio Oriente quando acalmar a onda de revoltas que continua a assolar aquela região do mundo.

Numa primeira análise, em termos geo-políticos, o grande beneficiário dos acontecimentos das últimas semandas tem sido o Irão para quem é positivo quer o enfranquecimento do Egipto e Jordânia, países "moderados" próximos dos EUA e com acordos de paz com Israel, e uma aproximação destes países às posições dos palestinianos do Hamas quer uma maior influência da maioria xiita no Barém, país no qual os EUA detêm importantes bases militares e que coloca pressão sobre uma Arábia Saudita onde existe uma considerável população xiita concentrada nas regiões produtoras de petróleo. Acrescente-se a crescente influência do Hezbollah no Governo do Líbano e dos xiitas no Governo iraquiano e temos um cenário em que tudo parece apontar para a emergência do Irão como grande potência regional (o que recorde-se era um dos sonhos dos xás) e um Médio Oriente dominado por um eixo Teerão-Damasco, que naturalmente suscita consideráveis preocupações não apenas a Israel mas, também, à Arábia Saudita.

Esta análise esquece, no entanto, um factor que pode vir a revelar-se decisivo. A legitimidade do regime do Irão encontra-se muito fragilizada desde as eleições de 2009 e enfrenta, ele próprio, problemas muito similares aos que determinaram a queda dos regimes tunisino e egípcio.